terça-feira, novembro 22, 2016

Os ministérios bíblicos na igreja (II)

[Grão de Trigo, Agosto 2015, pp. 2-3.]

Os ministérios formais na igreja

As igrejas são a reunião dos crentes com o propósito de nos fazer proclamar a Palavra, de velarmos uns pelos outros nos aspetos exteriores da fé e de nos instruirmos mutuamente. Os dons que dão lugar aos ministérios carismáticos – e informais – (de que tratámos no artigo anterior) são fundadores e inspiradores para a igreja e representam formas excecionais de liderança. Mas a igreja, na sua missão, não pode estar dependente do que é excecional. Para ilustrarmos este argumento, as igrejas que em Portugal e no Brasil adotaram como confissão a Breve Exposição das Doutrinas Fundamentais do Cristianismo consideram provavelmente o seu autor, o Dr. Roberto Kalley, um apóstolo no sentido lato de 1Cor. 4:9. Mas essas igrejas, para persistirem, não poderiam esperar encontrar em cada geração, até ao presente, alguém tão dotado e reconhecido como Kalley. O mesmo se poderia dizer relativamente a irmãos (se os houver) considerados profetas ou doutores. Outros ministérios têm de servir às necessidades da igreja no dia-a-dia, ajudando a dotá-la de uma regularidade sem a qual os grupos humanos não sobrevivem. É, pois, necessário haver ministérios regulares na igreja.

No Novo Testamento, é nos Atos dos Apóstolos e nas Epístolas que surgem as referências a estes ministérios, precisamente porque é nesses livros que se relatam acontecimentos ou se abordam problemas relacionados com as primeiras comunidades cristãs. Os ministérios regulares ou de nomeação eclesiástica são aqueles que a igreja mantém regularmente organizados e para os quais, reunida em assembleia formal, nomeia ou chama ou confirma irmãos para os exercerem. Nos Atos dos Apóstolos e nas Epístolas referem-se dois ministérios regulares ou formais: o presbiterado e o diaconado.

Os diáconos

Etimologicamente, «diácono» será qualquer irmão que exerça um ministério (ou serviço) na igreja. É por essa razão que Atos 6:1-6 é muitas vezes considerada a passagem que testemunha a instituição do diaconado, pois é aí que se conta que os apóstolos pediram à igreja em Jerusalém que escolhesse do seu seio sete homens para servirem às mesas durante a partilha de alimentos. O conjunto dos irmãos elegeu os sete e os apóstolos impuseram-lhes as mãos em sinal de reconhecimento daquele ministério. Mas seria errado entender-se que, por ter sido aquela a causa imediata da sua instituição, àquele tipo de tarefa se reduza o serviço dos diáconos. Bem lida, o que aquela passagem nos diz é que os apóstolos pediram à comunidade a designação de irmãos que trabalhassem ativamente na resolução prática de uma necessidade que estava a criar mal-estar dentro da igreja e a dar mau testemunho (o facto de as viúvas de irmãos de língua grega estarem a ser prejudicadas voluntária ou involuntariamente por irmãos de cultura judaica). Por essa razão, os escolhidos deveriam ser, de acordo com a solicitação dos apóstolos, «de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria» (v. 3). Não eram pessoas que simplesmente soubessem servir às mesas, mas que tivessem autoridade moral para serem respeitados e cujo testemunho na igreja fosse entendido como guiado pelo Espírito Santo, patente em palavras e atos sábios. Sem estas características não saberiam ser nem seriam reconhecidos como portadores de qualidades suficientes para irem ao encontro dos necessitados, dos perdidos ou dos desavindos dentro da igreja.

O grau de exigência na escolha dos diáconos era elevado, pelo que não espanta que um dos eleitos fosse Estêvão, o primeiro mártir e autor de um célebre discurso perante o Sinédrio que comprova grande conhecimento das Escrituras e do significado transcendente da pregação de Jesus (Atos 7:2-53). O apóstolo Paulo segue a mesma linha exigente quando define, em 1Tim. 3:8-13, o perfil do diácono.

Ao estarem orientados para o serviço por meio da solicitude (atenção às necessidades espirituais, afetivas e materiais dos irmãos) e de uma retidão de juízo, de propósitos e de atos, os diáconos assumem, assim, as qualidades que idealmente deveriam existir em todos os irmãos no seu convívio na igreja. Os diáconos são chamados a ser os guardiões ou os cultores dessas virtudes não só para resolução prática de falhas ou de necessidades entre irmãos, mas também para edificarem toda a comunidade, sendo agentes ativos e conscientes do bom testemunho que a igreja deve dar a crentes e não crentes.

De acordo com as características já referidas, os diáconos parecem também vocacionados para ajudarem na resolução de conflitos entre irmãos no espírito de Mat. 18:15-22 (nomeadamente para serem as testemunhas a que se refere o v. 16).

Os presbíteros

É difícil conceber que mais algum ministério formal possa ser exercido na igreja sem ter como base ou ponto de partida as qualidades e virtudes atribuídas ao diácono. [Neste sentido, pois, e não só no relevante e revelador sentido etimológico, todos os ministros da igreja são diáconos.]. Se, como foi dito, o diácono assume as características que idealmente todos os irmãos deveriam ter no convívio na igreja, isso aplica-se ainda mais aos irmãos que assumem outros ministérios – com destaque para os presbíteros.

O termo grego presbyteros era usado no tempo da igreja apostólica por associações religiosas e profissionais do mundo romano com um sentido muito semelhante ao que foi adotado nas assembleias (ekklesiai em grego) ou igrejas cristãs [Philip A. Harland, Associations, Synagogues and Congregations, Minneapolis: Fortress Press, 2003, p. 182]. Esse termo significava «ancião» e era usado como sinónimo de «supervisor» ou «superintendente» (episkopos em grego). Mas o termo «ancião» (zaqen em hebraico) era também usado no Antigo Testamento, sendo originário do período pré-monárquico da história de Israel. O termo surge em Êxodo 12:21 e Números 11:16, mas também, já no período monárquico, em 1Reis 21:8-14, Jer. 26:17 ou Prov. 31:23, ou, no tempo do Segundo Templo, em Esdras 6:7-8 e 10:14. Os anciãos da tradição judaica são também referidos no Novo Testamento, por exemplo em Marcos 15:1 e Atos 5:21 e 22:5. Os anciãos eram chefes de famílias extensas, exercendo autoridade religiosa e judicial sobre os seus parentes, sendo criticados por Jesus em Marcos 7:3, 5, onde são associados aos fariseus [J. A. Overman, s.v. «Elder», The Oxford Companion to the Bible, 1993, p. 182]. Parece claro que os anciãos ou presbíteros das primeiras comunidades cristãs, mencionados em Atos e nas Epístolas, não têm relação direta nem semelhança formal – talvez apenas uma filiação simbólica para os judaizantes – com o zaqen do Antigo Testamento.

Nas primeiras comunidades cristãs, os anciãos podiam ser chamados ou nomeados pelos apóstolos (Atos 14:23 e Tito 1:5) segundo o critério de pertencerem à família espiritual do Senhor e não à posição familiar ou tribal na sociedade – tal como Jesus escolhera os próprios apóstolos e os fizera seus parentes espirituais (Mat. 12:46-50). Na ausência dos apóstolos, compete obviamente à assembleia dos irmãos reconhecer no seu seio aqueles que revelam dons para o presbiterado. Paulo, depois de traçar o perfil pessoal do presbítero, de uma forma que lembra o que para os diáconos também estava estabelecido (Tito 1:6-8), considera-lhe atribuídas as funções de ser «apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem» (Tito 1:9). Em Tim. 5:17, o apóstolo considera-o digno de estima e honra sobretudo se se dedicar à «palavra» e à «doutrina» (isto é, ao ensino). O presbiterado é, assim, um ministério centrado na Palavra – no seu estudo, proclamação e explanação. Ao presbiterado pertence trazer a Palavra para o centro da vida espiritual da igreja, pois a Palavra é o «pão da vida» e o «pasto» dos crentes.

Poder-se-ia dizer que a diferença substantiva entre um diácono e um presbítero é que o segundo tem a obrigação de pregar e ensinar regularmente (o que não invalida que o primeiro o possa fazer voluntária e esporadicamente).

Outros ministérios formais

É neste contexto que aos presbíteros é concedida a função simbólica de poderem ser «pastores», de «apascentarem» os seus irmãos na igreja, como Jesus exortou Pedro a fazer (João 21:15-17). Nesse caso, o presbítero assume – por solicitação ou reconhecimento da igreja – uma vocação que não é só a de proclamar, ensinar e explanar a Palavra, mas que é também a de, através dela, conduzir os seus irmãos ao «pasto» e ao «pão» que alimentam o seu coração pelas veredas mais apropriadas às condições de cada um. Para isso, o presbítero que é pastor tem também de dedicar-se aos irmãos com uma grande dose de solicitude, de conhecimento e de dedicação a cada um, de modo que a proclamação que fizer da Palavra seja adequada aos corações concretos que tem diante de si na igreja.

Se incluirmos ainda no conjunto dos ministérios formais o de evangelista (missionário ou obreiro como referido em 2Tim. 4:1-5), e que a igreja pode querer designar para trabalho missionário de entre os presbíteros, ficamos com os quatro ministérios elencados na Breve Exposição (artigo 22.º): diáconos, presbíteros, pastores e evangelistas.

Conclusão sobre a estrutura formal da igreja

Daquilo que foi dito se pode concluir que a formalização dos ministérios na igreja não conduz a uma estrutura hierárquica, mas a uma estrutura concêntrica. Uma ilustração desta realidade pode ser a que se segue:
Podemos ser membros da igreja sem nela termos ministérios reconhecidos – desde que sejamos batizados e que tenhamos sido aceites na comunidade comungante e confessante. De entre os membros da igreja há, porém, aqueles que foram chamados ao exercício formal da diaconia (o ministério por excelência) – e como tal reconhecidos pela assembleia dos irmãos. E é do seio destes ministros que a igreja reconhece também os presbíteros, que são os «ministros» ou «diáconos» da Palavra.


Os ministérios bíblicos na igreja (I)

[Grão de Trigo, Abril 2015, pp. 2-3.]

Dos dons ao serviço: vocação individual em contexto eclesial

Na igreja, isto é, na reunião dos crentes com o propósito de proclamar a Palavra, todos têm, em maior ou menor medida, dons atribuídos pelo Criador. «Dom» é o mesmo que «carisma», termo grego que deriva de Χάρις (charis) e significa «graça» ou «favor», originando a palavra Χάρισμα (charisma), que significa «dom da graça». Daí que 1Ped. 4:10 afirme que os dons são a manifestação da «multiforme graça de Deus». Nalguns irmãos, os dons ou carismas são visíveis e/ou conscientes; noutros, estão ocultos, às vezes mesmo para quem os transporta. São muitas vezes as circunstâncias que revelam (aos próprios ou aos outros) esses dons escondidos. No entanto, é importante estarmos conscientes de que somos chamados a fazer frutificar os nossos dons (Mateus 25:14-30), o que implica conscientemente procurá-los e descobri-los.

Os dons ou carismas serão importantes na nossa relação pessoal com Deus, mas têm uma função ou um propósito sobretudo eclesial. Temos dons para servir Deus, a igreja e o próximo. E servir a proclamação da Palavra ou o Evangelho é, claro, servir na igreja. «Servir» ou «serviço» é o mesmo que «diaconia» (do termo grego diakonia). Carisma e diaconia, dom e serviço, estão, pois, ligados – a razão de ser do dom não é a autossatisfação do crente, mas a sua realização individual como crente no serviço da missão da igreja. Assim, usar os dons que temos significa colocá-los voluntariamente ao serviço da e na igreja. Mas, para esses dons serem serviço, têm de ser reconhecidos como tal na igreja. Os dons de cada um não podem ser impostos nem ao próprio (pela igreja) nem pelo próprio (à igreja). No espírito de 1Cor. 12:4-7, o dom de cada um deve ter «utilidade» ou um «fim proveitoso» na igreja (v. 7). Será, pois, a assembleia dos irmãos que manifestará o reconhecimento desses dons em alguns dos seus membros. Mas, para isso acontecer, esses dons têm, de alguma forma, de manifestar-se primeiramente perante todos.

Os dons, bem orientados, tornam-se, assim, serviço (ou diaconia). Ora, daquele que serve diz-se ser um ministro ou que exerce um ministério (uma atividade de serviço).

Os ministérios puramente carismáticos

Os dons ou carismas não podem ser confundidos com quaisquer atributos ou capacidades que possuímos e que podem ser úteis ou ter valor na vida secular. Estes podem até ser importantes no trabalho quotidiano da igreja enquanto comunidade, mas não são necessariamente carismas. Carismas são somente aqueles que apenas servem o Evangelho, a proclamação da Palavra. Paulo enumera-os em Rom. 12:6-8 (profecia, ministério, ensino, exortação, contribuição, presidência e misericórdia), em 1Cor. 12:8-10 (sabedoria, conhecimento, fé, cura, operar milagres, profecia, discernir espíritos, variedade de línguas e interpretação de línguas), em 1Cor. 12:28 (apostolado, profecia, ensino, milagres, cura, socorros, governo e variedade de línguas) e em Efésios 4:11 (apostolado, profecia, evangelismo, pastorado e ensino). Estes carismas manifestam-se nos crentes e são reconhecidos pela igreja, em geral de modo informal. De entre estes, Deus levantou, em certas ocasiões, profetas, apóstolos e doutores (ou mestres), pessoas marcadas por dons invulgares na pregação, na edificação, no ensino e na organização dos crentes.

«Profeta» é alguém que age e se expressa como mensageiro de Deus. No livro de Atos dos Apóstolos, várias figuras são referenciadas com esta qualidade (capítulos 11, 13, 15 e 19). Paulo reconhece a profecia como carisma ativo nas igrejas do seu tempo. Também na história cristã posterior, alguns grupos e igrejas reconheceram nalgumas personalidades esta qualidade. Mas tem havido prudência na sua atribuição, dada a consciência da sua excecionalidade.

«Apóstolo» significa «enviado» e, apesar de a sua obra ter de ser reconhecida também pela igreja, acreditamos que é alguém escolhido por Deus para realizar grandes feitos em seu nome. Além dos doze escolhidos diretamente por Jesus, e de Paulo, são igualmente chamados apóstolos outras figuras referidas no Novo Testamento (seguramente, Barnabé, Apolo, Silvano e Timóteo). Depois destes, certas personalidades poderão receber este qualificativo de determinadas igrejas ou grupos de crentes, mas, em certo sentido, numa aceção analógica relativamente àqueles que Jesus escolheu diretamente (e em que se inclui também Paulo).

«Doutor» (didaskalos em grego) é alguém a quem se reconhece qualidades excecionais na exposição das Escrituras. É defensável que este dom seja considerado um só com o do pastorado (como parece sugerir Efésios 4:11). Paulo refere também os evangelistas, cujo ministério parecia dirigir-se aos pagãos, pelo que podemos compará-lo com os obreiros ou missionários criadores de novas igrejas, distintos dos apóstolos.

Os ministérios formais em ambiente eclesial

De todos estes carismas e ministérios, vimos que pressupunham o reconhecimento da igreja para não serem apenas a manifestação de vocações pessoais. No entanto, a sua natureza é, em grande medida, informal, pois a igreja, embora beneficie do seu reconhecimento, não os mantém regularmente organizados nem nomeia pessoas para os exercer. Eles têm um carácter excecional ou invulgar e distinguem-se dos ministérios de nomeação eclesial, de que fazem parte, nomeadamente, o presbiterado e o diaconado. Este segundo tipo de ministérios na igreja será abordado num artigo do próximo número deste boletim.

[Continua]

terça-feira, novembro 08, 2016

PO:LIS:BOA (II)

Um happening com a senhora agente


A minha perspetiva pedonal (de peão, isto é, de alguém que faz a sua «guerra» urbana diária sobretudo a pé) teve há umas semanas um happening com uma agente da Polícia Municipal. Quis vê-lo como sintomático de muita coisa.

A senhora agente estava de manhãzinha no troço da avenida da República, ainda e sempre em obras, junto à estação de Entre Campos. Dirigi-me a ela para a alertar que os separadores de plástico, colocados no início do quarteirão, para improvisar uma passagem para peões, roubando um pouco à estrada, estavam todos desalinhados, não permitindo a travessia em segurança até ao passeio (ou ao que restava dele).

A resposta instintiva da agente foi qualquer coisa como «Mas o senhor tem de perceber que isto está em obras». Ela não ouvira bem o que eu lhe disse e – julgo eu – não percebeu o alcance da sua atitude, mesmo depois de ter entendido aproximadamente o que eu lhe queria dizer. Ela estava sobretudo a certificar-se de que tudo corria bem entre a obra e os automobilistas. Era o que a posição dela naquele cenário dizia de todas as formas.

Os peões, com ou sem passagens seguras no meio de toda aquela confusão, seriam um género de figurantes que não têm propriamente um papel a desempenhar nem merecem muita atenção. Ora, os peões eram – apenas – os elementos fisicamente mais vulneráveis e em maior perigo naquele cenário. Mas a senhora agente não tinha claramente interiorizado esse facto na forma como via o que ali se passava e como desempenhava a sua função. Se tivesse, teria logo querido saber onde estava e como se encontrava aquela passagem perigosa de que lhe falei.

Tudo o que obtive foi uma promessa vaga de que iria lá ver «logo que possível» (quando a abordei estava a conversar com outro agente). Tive de ir apanhar o comboio e não faço ideia se lá foi ou não, mas ainda ouvi o esclarecimento de que arrumar os separadores não era com ela, mas com os responsáveis da obra. Não me passou pela cabeça tal coisa, mas, mais uma vez, não era nada claro para aquela agente que uma função natural que aquela farda lhe impõe é zelar em absoluto pela segurança das pessoas que estão na área sob o seu policiamento – e que os peões eram, naquele cenário, as mais vulneráveis das pessoas que por ali passavam.

A obrigação dela era alertar imediatamente os responsáveis da obra para a situação de insegurança em que os peões estavam a ser colocados e providenciar a resolução do problema o quanto antes – nem que a obra tivesse de ser interrompida por uns minutos. Posso estar a ser injusto, mas o que pareceu é que a senhora agente entendia a sua missão mais como protetora da obra (prevenindo a possível interferência do trânsito automobilístico na mesma) e do bom curso dos trabalhos, quiçá com vista mais ou menos consciente nos prazos de execução, do que como representante, protetora e agente dos direitos dos munícipes. Direitos que incluem a segurança física.

Neste episódio, vejo duas coisas distintas. Por um lado, uma Polícia Municipal que faz jus à imagem antiga do agente só interessado nas multas de trânsito que permitem apresentar serviço e dar mais renda à Câmara Municipal, ou seja, um governo municipal autocentrado, sem cultura de serviço fora dos exercícios retóricos; por outro lado, mais uma faceta da situação de menoridade de direitos de que em Lisboa gozam os munícipes enquanto peões. Voltaremos mais vezes nesta coluna a esta segunda situação.

Perante situações destas, não tenho qualquer dúvida de que devemos ser insistentes, dizendo a agentes como aquela o que devem fazer, as vezes que for necessário. Cada um tem de fazer o que está certo sempre que for necessário. É a única forma consequente de não desistirmos da cidade, de não a entregar de bandeja, sem luta, ao monopólio funcional dos incompetentes e dos abusadores – com farda e sem ela, com crachá da Câmara Municipal ou sem ele.

terça-feira, novembro 01, 2016

PO:LIS:BOA (I)


A melhor forma de vida

Nasci em Lisboa, na Avenida António Augusto de Aguiar (Clínica Cabral Sacadura). O meu pai era madeirense, mas veio para Lisboa na juventude, para estudar e trabalhar. A minha mãe, embora nascida em Cascais, viveu a maior parte da sua vida de solteira em Lisboa (Avenida Almirante Reis e Avenidas Novas) e aqui também se formou em enfermagem. Foi em Lisboa que os meus pais se conheceram. Depois das andanças pelo Ultramar (o meu pai era oficial do Exército), vivi sempre perto de Lisboa (em Oeiras e, mais tempo, em Cascais), mas comecei a fazer a minha vida na capital desde que em 1987 entrei na universidade. Resido nesta cidade desde 2004 e, uns anos antes, foi aqui que conheci a minha mulher. Sinto-me lisboeta, sem qualquer sombra de dúvida. Adoro viver em Lisboa, embora sinta que pudesse viver igualmente bem noutras grandes cidades. Lisboa tem especificidades de que gosto mais ou menos, mas é através dela que participo da experiência universal e milenária da vida em grandes urbes – com a convicção de que é a melhor forma de vida.

Há alguns anos (na verdade, há já mais de um bom quarto de século) fui o que eu próprio chamava “um ruralista”. Acreditava que a vida rural era mais saudável, mais virtuosa e mais potenciadora de felicidade do que a vida em cidades. No entanto, nada na minha infância ou adolescência, sempre passadas em cenários urbanos ou suburbanos, me permitia ter essas ideias a partir de experiência vivida. Antes de fazer 20 anos até escrevi um género de manifesto, inspirado num contacto literário em segunda mão com o grupo de Andrew Lytle («Os Desterrados», Diário de Notícias, 19.01.1988, supl. DN Jovem). O meu conceito de ruralidade era todo abstrato, literário ou ideológico, menos apoiado em impressões de curtas viagens do que em imagens de filmes e construções mentais – era, ironicamente, um “mito urbano”, uma fantasia projetada no tempo histórico sem qualquer relação com uma perceção refletida da realidade passada ou presente.

Bastante mais tarde viria a descobrir que a satisfação estética e sensorial procurada no utopismo “naturalista” e paisagístico, implícita no ruralismo (pelo menos naquele que era o meu), tem muito mais possibilidades de aplicação nos jardins em espaço urbano do que nas grandes extensões do espaço rural – sobretudo se pensarmos no tipo de jardim inglês (oposto ao geometrismo do jardim francês), que procura “copiar” a Natureza, até “melhorá-la” esteticamente, mas domesticando-a. O jardim urbano, que, desta forma, pode ser visto como uma aplicação da noção estética de Aristóteles, mostra como a cidade transforma e humaniza o espaço. Os jardins botânicos e zoológicos participam deste utopismo (são versões “conservacionistas” do mesmo) – mas são também criações das cidades.

Com o passar dos anos, foi a História que me foi despertando para a importância das cidades como espaço de plena realização do ser humano. Obviamente, este novo olhar sobre as cidades implicava ter em consideração o que de menos agradável há e houve nelas – mas implicava também olhar dessa forma para o espaço rural. Um elemento “disfuncional” na minha ideia anterior de ruralidade era o conhecimento histórico que tinha da atratividade das cidades para as populações rurais, mesmo que a reduzisse a miragem a que sucumbiam os mais “fracos” de carácter. É evidente que esse juízo romântico não resistiu a um conhecimento mais aprofundado das motivações económicas daquela atração. E eu ainda nem estava desperto para a abordagem desta problemática da perspetiva mcneilliana – das cidades como sorvedouros mortais de migrantes rurais até à era da vacinação massificada. W. H. McNeill explorou extensivamente essa temática no seu livro, já clássico, Plagues and Peoples (1976), mas de que se pode ter um “cheirinho” no seu ensaio «Cities and Their Consequences» (2007).

Uma perspetiva histórica mais informada da relação do Homem com o meio ambiente também foi importante para a alteração da minha perceção das cidades. A par de W. H. McNeill, que me deu uma consciência global e cosmopolita da condição humana no tempo e no espaço no seu ainda e sempre magnífico e completo The Rise of the West: A History of the Human Community (1964, reed. 1991), foi fundamental para mim a visão de longuíssima duração da abordagem histórico-biológica de Alfred W. Crosby em Ecological Imperialism: The Biological Expansion of Europe (1986). Este autor mostrou-me como os grupos humanos sempre alteraram os ecossistemas em que se estabeleceram, por regra profundamente, e que a “ruralidade” colocada nesta perspetiva era uma alteração do meio ambiente historicamente construída e não tão distinta do ambiente urbano como à primeira vista podia parecer. Em relação ao espaço rural, as cidades aparecem, ao longo da história, mais como um tipo de povoamento diferenciado (concentrado) do que como uma descontinuidade artificial em relação à restante ocupação humana do espaço geográfico. O povoamento disperso caracteriza o “campo” e o concentrado a “cidade”.

A experiência histórica de viver num espaço concentrado surgiu-me rapidamente como desafiante e cheia de possibilidades.

Não que os riscos não estejam lá. McNeill realçou a facilidade de transmissão de vírus onde os seres humanos se juntam em espaços de grande densidade populacional; mas, de acordo com a chamada “lei de McNeill” (apresentada em Plagues and Peoples), as populações urbanas assim massacradas rapidamente se tornavam agentes coletivos de domesticação desses perigos biológicos para a espécie e ganhavam uma resiliência que explica boa parte da evolução da civilização até aos nossos dias. A revolução da vacinação massificada no século XX tornou depois as cidades em espaços mais aprazíveis para quem vinha do “campo” – e, na verdade, para toda a gente. Mas, naquele século, outros perigos foram criados, mais ou menos involuntariamente, pela tecnologia bélica (que tornava as cidades alvos preferenciais da guerra total) e, mais corriqueiramente, pelas boas intenções ou obsessões totalmente humanas dos reguladores e dos planeadores urbanos. O economista sueco Assar Lindbeck escreveu um dia que a regulação do mercado de arrendamento era a segunda forma mais eficaz de destruir uma cidade – a seguir a um bombardeamento aéreo. E Jane Jacobs, no seu imortal Death and Life of Great American Cities (1961), explicou com perspicácia como a planificação urbana obcecada com a funcionalidade abstrata pode tornar as cidades disfuncionais para os seus habitantes concretos. Mas as cidades sobreviveram a todos estes tipos de perigos – aos últimos, sobretudo com o senso comum e a espontaneidade do “viver habitualmente”, que são a forma mais eficaz de resistência às planeadas pressões dos disciplinadores administrativos.

A propósito da espontaneidade do “viver habitualmente” em cidade, muito haveria a dizer sobre o papel humanizador e possibilitador da vida urbana desempenhado pelo comércio de rua. Este fenómeno económico urbano, que é uma complexa teia de iniciativas individuais e relações de mercado, não é planificado por ninguém e é o que de mais funcional pode haver numa grande cidade. As lojas em piso térreo e abertas para a rua são uma conquista civilizacional em que nem pensamos. Já era assim em todas as cidades romanas, que são as que nos deixaram vestígios arqueológicos mais eloquentes. As lojas de víveres, de roupas, de serviços, de consumo, de o que quer que seja, são não só o esteio económico da vida urbana, disseminado por absolutamente todas as ruas de qualquer grande cidade, mas também a mais forte e extensa rede de sociabilidade e contacto humano dentro do espaço urbano. O comércio vai até à mais pobre e recôndita rua, como nenhum esforço planeado saberia fazer. A sua presença e a forma como se anuncia, virando-se para a rua com tabuletas, montras, esplanadas, dá cor e sinais de vida às artérias e aos bairros, mesmo os mais pobres ou sombrios. O conceito de montra, em que o comerciante, com arte ou método, comunica a quem passa o que vende – e contribui para embelezar e enriquecer de diversidade os percursos de quem calcorreia cada rua –, é uma das glórias da cidade.

A diversidade patente no comércio é um indício muito visual de que as cidades, pela concentração populacional, favorecem a especialização associada ao processo de divisão do trabalho explicado por Adam Smith, mas também a consolidação social da pluralidade de crenças, gostos, opções e modos de vida, que dão aos seus habitantes possibilidades viáveis e acrescidas de sociabilidade fora da família e da vizinhança. Esta é uma das razões mais claras para as cidades serem consideradas um espaço de liberdade – porque as escolhas são mais amplas e realmente viabilizadoras da autodeterminação do indivíduo. Mas aquelas diversidade e concentração foram igualmente a fonte de uma recriação do trabalho, assente já não só em ofícios que teriam um futuro industrial, mas em profissionais de serviços múltiplos que foram revelando uma civilização cada vez mais talentosa e capaz de gerar um refinamento crescente da vida comunitária e privada.

A arquitetura urbana não deixa de ser uma analogia construída desta criatividade institucional que foi paralela da especialização económica e cultural. No seu desenvolvimento técnico, estilístico e monumental, é patente como a criatividade humana encontra na cidade o “ecossistema” adequado para prosperar e se fixar no espaço, reinventando-o e até multiplicando-o onde ele mais escasseia – daí a aventura tipicamente urbana de construir em altura. Essas possibilidades arquitetónicas, aliadas à concentração populacional, explicam a forma material de instituições eminentemente urbanas e tão diversas quanto os hospitais, as universidades, os teatros, os clubes desportivos, as grandes empresas ou as grandes áreas comerciais que se conceberam – como as antigas ruas da Baixa – numa densa «cidade» de oferta comercial concentrada.

As cidades são as pessoas que as habitam – e, como J. Jacobs bem viu, devem ter a “dimensão” dessas pessoas. Não se trata de uma dimensão territorial, mas de uma dimensão sensória e de raio de ação, à escala do indivíduo. As ruas, as artérias das cidades, devem ter residentes e permitir a circulação das pessoas a pé, sem que isso obste a que circulem veículos e a que outras pessoas aí trabalhem. Ruas sem habitantes nem peões, ou sem lojas, são o começo do inferno – isto é, da morte da cidade. Ter peões significa ter passeios e ter habitantes significa que aqueles têm de ser amplos e seguros para crianças e idosos, que não podem viver confinados ao interior dos edifícios. Os parques e jardins são ótimos, mas são outra questão.

A presença dos idosos nas ruas é, aliás, um fator fundamental para a manutenção das relações de vizinhança no espaço urbano, pois são eles quem tem mais tempo para as cultivar no dia-a-dia na área onde vivem, transportando um historial de conhecimentos e relações pessoais que facilita a apropriação do espaço. Como ensinou J. Jacobs, tanto quanto as lojas de rua, estes residentes idosos ajudam numa função descurada mas vital de «vigilância» informal que põe em sentido «amigos do alheio» e praticantes de violência pública ou privada. É uma demonstração de como as cidades precisam de residentes e de comércio em cada rua para serem espaços aprazíveis e seguros.

O governo municipal, tal como o governo central, pode ser o maior inimigo desta escala humana da cidade. Ele concentra o poder de agir coletivamente a uma dimensão que pode amplificar desastradamente a propensão humana para o disparate – sobretudo quando lhe falta ponderação e humildade ou abundam o entusiasmo e a prepotência. Talvez seja abusivo considerar o governo municipal outra das glórias urbanas, mas, mesmo sem discutir a sua origem, é indiscutível que as cidades se adaptaram bem a ele e deram um contributo fundamental para a sua evolução.

O governo da cidade sempre tendeu a ser coisa de poucos, permeável a interesses fortes e ativos e a ser submisso ao poder central. É isso que explica o potencial que o entusiasmo ou a prepotência dos decisores nas questões públicas têm para fazer estragos na vida dos outros habitantes da cidade. Essas decisões condicionam e podem destruir aquilo que os habitantes sabem fazer por si, nas suas relações económicas e de sociabilidade. O controlo democrático daquelas decisões, mesmo que por entrepostos representantes eleitos, tem e terá sempre limites de eficácia, mas é uma garantia valiosa. Outro mecanismo limitador dos estragos potenciais da concentração do poder é a descentralização – que na cidade portuguesa tem na paróquia ou freguesia urbana um recipiente obvio. Dada a sua dimensão de maior proximidade às relações de vizinhança e aos ambientes de rua, a freguesia pode ser mais eficazmente controlada por munícipes motivados pela defesa dos seus interesses e pontos de vista – e este controlo democrático mais localizado pode tornar as freguesias um contrapeso limitador e questionador do governo municipal e da sua articulação com os interesses fortes mais ou menos organizados.

Uma grande cidade como Lisboa, com um porto aberto ao mar, sempre deu aos seus habitantes uma possibilidade fática ou simbólica de saída – o que é uma condição acrescida de liberdade. O porto é também, claro, um meio e um sinal de abertura ao mundo, sobretudo ao restante mundo urbano, e, portanto, um pólo económico e cultural de cosmopolitismo. Quem diz porto, diz hoje grande central ferroviária internacional ou aeroporto. A entrada e a saída (do residente ou do viajante) é fundamental para explicar a condição humana e civilizacional da cidade; esta, para ser a melhor forma de vida, não pode ser autárcica. As pequenas polis que assim viviam, fechadas sobre si mesmas, não eram verdadeiras cidades como hoje as entendemos. Foi a comunicação através do mar ou a sua integração numa vasta rede de trocas, favorecida pelos espaços imperiais da Antiguidade, que fez de alguns desses aglomerados realidades em que já reconhecemos cidades (urbes).


Cada cidade é sem dúvida única no seu nome, na sua história, nos seus edifícios e praças emblemáticas, em certos hábitos dos seus habitantes – e, por isso, portadora de uma identidade inegável; mas, para ser cidade, não tem apenas as características gerais aqui referidas, encontradas também nas outras cidades. Para quem a habita, cada cidade é a realidade mais genuína e tangível da civilização – assim como cada um o é para si próprio da humanidade.